Hoje deixo um conselho aos apaixonados pela poesia... Deixem-se fascinar por este maravilhoso livro:
Os Versos do Capitão
Pablo Neruda
(Campo das Letras)

Um verdadeiro mestre da poesia, Pablo Neruda revela-se em todo o seu talento neste maravilhoso conjunto de poemas. Durante anos, esta obra foi mantida no anonimato. O porquê é o próprio autor que o explica: "... todos os livros deveriam ser anónimos. (...) Por tudo e por nada, por isto e por aquilo, por alegrias impróprias, por sofrimentos alheios."
A intensidade dos sentimentos é uma constante, tal como a multidiversidade das formas com as quais se revestem: o amor, o desejo, as fúrias, as vidas surgem-nos descritas com a profundidade de quem as viveu intrinsecamente, com a perfeição de quem domina verdadeiramente as Letras...
Como o próprio poeta chileno refere no início do livro, a obra tem origem em "arrebatamentos de amor e fúria" e, tal como ele desejou, a sua obra perdurou além dele, ganhou vida própria, sentido oculto em cada diferente leitor que bebe da sua inspiração, germina em cada um de nós a sua inigualável força, as suas ardentes emoções e desejos.
"Entrego, pois, este livro sem mais explicações, como se ele fosse e não fosse meu: basta-lhe que possa caminhar sozinho pelo mundo e crescer por sua conta. Agora que o reconheço, espero que o seu sangue furioso me reconheça também."
Por fim, deixo um dos meus poemas favoritos:
O Poço
Afundas-te às vezes, cais
no teu fosso de silêncio,
em teu abismo de cólera orgulhosa
e só a custo consegues
regressar, mas ainda com vestígios
do que achaste
nas profundezas da tua existência.
Meu amor, o que encontras
no teu poço fechado?
Algas, lama, rochas?
Que vês de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Vida minha, no poço
onde cais não acharás
o que no alto guardo para ti:
um ramo de jasmins orvalhados,
um beijo mais fundo que o teu abismo.
Não tenhas medo, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode as palavras que te feriram
e deixa que voem pela janela aberta.
Elas voltarão a ferir-me
sem que tu as dirijas,
pois foram proferidas em momento de dureza
e esse momento será desarmado em meu peito.
Sorri para mim radiosa
se a minha boca te fere.
Não sou um pastor brando
como os dos contos de fadas,
mas um bom lenhador que reparte contigo
terra, ventos e espinhos dos montes.
Ama-me tu, sorri,
ajuda-me a ser bom.
Não te firas em mim, que será inútil,
não me firas a mim porque te feres."
