Domingo, 16 de Março de 2008

Hoje deixo um conselho aos apaixonados pela poesia... Deixem-se fascinar por este maravilhoso livro:

 

Os Versos do Capitão

Pablo Neruda

(Campo das Letras)

 

 

Um verdadeiro mestre da poesia, Pablo Neruda revela-se em todo o seu talento neste maravilhoso conjunto de poemas. Durante anos, esta obra foi mantida no anonimato. O porquê é o próprio autor que o explica: "... todos os livros deveriam ser anónimos. (...) Por tudo e por nada, por isto e por aquilo, por alegrias impróprias, por sofrimentos alheios."

A intensidade dos sentimentos é uma constante, tal como a multidiversidade das formas com as quais se revestem: o amor, o desejo, as fúrias, as vidas surgem-nos descritas com a profundidade de quem as viveu intrinsecamente, com a perfeição de quem domina verdadeiramente as Letras...

Como o próprio poeta chileno refere no início do livro, a obra tem origem em "arrebatamentos de amor e fúria" e, tal como ele desejou, a sua obra perdurou além dele, ganhou vida própria, sentido oculto em cada diferente leitor que bebe da sua inspiração, germina em cada um de nós a sua inigualável força, as suas ardentes emoções e desejos.

 

"Entrego, pois, este livro sem mais explicações, como se ele fosse e não fosse meu: basta-lhe que possa caminhar sozinho pelo mundo e crescer por sua conta. Agora que o reconheço, espero que o seu sangue furioso me reconheça também."

 

Por fim, deixo um dos meus poemas favoritos:

 

O Poço

 

Afundas-te às vezes, cais

no teu fosso de silêncio,

em teu abismo de cólera orgulhosa

e só a custo consegues

regressar, mas ainda com vestígios

do que achaste

nas profundezas da tua existência.

Meu amor, o que encontras

no teu poço fechado?

Algas, lama, rochas?

Que vês de olhos cegos,

rancorosa e ferida?

Vida minha, no poço

onde cais não acharás

o que no alto guardo para ti:

um ramo de jasmins orvalhados,

um beijo mais fundo que o teu abismo.

Não tenhas medo, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode as palavras que te feriram

e deixa que voem pela janela aberta.

Elas voltarão a ferir-me

sem que tu as dirijas,

pois foram proferidas em momento de dureza

e esse momento será desarmado em meu peito.

 

Sorri para mim radiosa

se a minha boca te fere.

Não sou um pastor brando

como os dos contos de fadas,

mas um bom lenhador que reparte contigo

terra, ventos e espinhos dos montes.

 

Ama-me tu, sorri,

ajuda-me a ser bom.

Não te firas em mim, que será inútil,

não me firas a mim porque te feres."



publicado por Dreamfinder às 20:04
Terça-feira, 17 de Julho de 2007



publicado por Dreamfinder às 11:28
“Um leitor é sempre um estudante do mundo.” Deborah Smith
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